ENTREVISTA – Professor Sérgio Rodrigues, do IFPB: “Temos apoio da Reitoria, contra o ‘Escola Sem Partido’, o corte de ponto e a favor do direito à greve”

Publicado por: Monalisa Resende | 6 de janeiro de 2017 - 10:16am

O professor Sérgio Rodrigues, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB), foi um dos três servidores do campus Cabedelo que sofreram denúncias ao Ministério Público, feitas por pais de estudantes ligados ao Movimento Brasil Livre e a outros setores de direita. A reclamação contra os docentes foi de que eles teriam “doutrinado” alguns estudantes para que promovessem, desde o dia 24 de outubro, a ocupação do campus.

Em entrevista especial à equipe de Comunicação do Sindsifce, o professor contraria os relatos e esclarece que “são os estudantes que estão doutrinando os professores”, com uma ocupação realizada de forma autônoma, consciente, cidadã e altiva, como vem acontecendo em todo o País, e apenas com contribuição dos professores em atividades como aulões e debates.
20170106ifpb
“Os estudantes estão dando uma aula de democracia. Eles estão fazendo com que a gente reveja as práticas pedagógicas, tudo isso. Esse caso foi um dos que mais repercutiram no Brasil todo”, afirma o professor Sérgio Rodrigues, que destaca que os servidores do IFPB vêm recebendo todo apoio da Reitoria, tanto quanto à defesa contra essa acusação absurda e descabida, que deixa reflexões sobre os perigos do projeto “Escola sem Partido”, como quanto à garantia do direito de greve, com compromisso assumido contra qualquer possibilidade de corte de ponto. Confira a entrevista:
 
Sindsifce – Como aconteceu esse processo, até chegar a uma notificação judicial, com acusações contra o senhor e outros servidores do IFPB, campus Cabedelo?
Prof. Sérgio Rodrigues, do IFPB – Quando os alunos iniciaram a ocupação do campus Cabedelo, na região metropolitana de João Pessoa, estávamos em aula normal. Deixamos de dar aulas e apoiamos o movimento. A gente viu que era um direito dos estudantes, um exercício de democracia. Eles estavam ocupando o espaço que é deles. Eles começaram a fazer uma programação, como vem sendo feito em todo o Brasil. E começamos a contribuir com aulões pro Enem, discussões sobre as MPs, a PEC. As reuniões são sempre abertas. Numa dessas ocasiões, eu estava dando uma oficina de redação, e fomos surpreendidos com alguns pais de alunos que chegaram dizendo que queriam participar. Eles começaram a criar um certo tumulto, defender o “Escola sem Partido”. A gente aceitou o debate, abriu o debate com eles. Nesse ínterim, alguns deles começaram a filmar a escola, as atividades. E aí fomos chamados urgentemente pra ir lá fora, porque estava tendo um tumulto, uma confusão. Vimos que eles filmaram algumas coisas. E a gente continuou o trabalho. Duas semanas depois chegou uma notificação, com pais integrantes desse movimento, três pais e três estudantes, do Movimento Brasil Livre.

 

Qual era o teor das acusações?
Eles assinaram um documento no Ministério Público Federal, acusando os professores, eu e outros dois, professores de Climatologia e de História, de serem “doutrinadores”. E acusando a direção do Instituto de ser conivente. Fizeram várias acusações levianas, de uso de drogas no Instituto, o que não tem nenhum sentido. Os meninos (estudantes) até cogitaram vigiar à noite, para evitar que algum carro pudesse passar e jogar alguma coisa, para depois dizerem que é dos estudantes. Até agora nós, professores, não fomos chamados pra depoimento, mas a direção da escola sim. Eles entraram tanto no MPF quanto no Ministério Público Estadual (MPE). Mas o Ministério Público percebeu que não tem fundamento.

 

Como vem sendo a repercussão desse caso, no plano local?
O grande problema é a repercussão, a forma como isso é visto pela sociedade. Se por um lado o movimento está muito forte, com grande apoio à ocupação, por outro lado temos receio que outros pais venham a agir dessa forma. Parte da imprensa fica desvirtuando… A gente tá passando uma barra muito difícil nesse sentido, com tentativas de dizer que professores são doutrinadores…  Mas não fomos chamados a depor ainda. Nós vamos com o Jurídico do nosso Sindicato, antecipando-nos ao chamado deles. Nós é que estamos sendo doutrinados pelos estudantes, que estão dando uma aula de democracia. Eles estão fazendo com que a gente reveja as práticas pedagógicas, tudo isso. Esse caso foi um dos que mais repercutiram no Brasil todo.

 

E, com toda essa pressão, qual vem sendo a postura da Reitoria do IFPB?
A Reitoria está tendo uma postura extremamente ética, democrática, não só em respeito à ocupação, mas à greve da gente, que se iniciou de três a quatro semanas após a ocupação. A direção do campus foi intimada junto, como se tivesse sido conivente.  Com relação à Reitoria, a Paraíba está dando exemplo. Estive inclusive no Rio Grande do Norte para prestar esse esclarecimento, e a coisa está andando. A gente continua em greve, e a própria Reitoria, que se manifestou por ofício desde o início, dizendo que apoiava o movimento, não ia cortar o ponto, até porque o acórdão (da decisão do STF permitindo possibilidade de corte de ponto) não saiu ainda. Mas entramos em entendimento com a Reitoria no sentido de que, quando a coisa apertasse e fosse comprometer a gestão, a gente negociaria.

 

A greve está atualmente suspensa, não é?
Sim. Pra que a gente não tivesse problema de corte de ponto, a gente suspendeu a greve a partir do dia 14. Mas de lá pra cá teve nova reunião do CONIF, em Maceió, e eles deliberaram pelo envio de um ofício ao Ministro da Educação, dizendo que era impraticável cortar o ponto. E isso nos fortaleceu, porque, como na assembleia decidimos suspender a greve dia 14, retomar as atividades e fazer o planejamento pedagógico, já colocando as reposições de aula, isso nos dá legalidade pra não ter corte de ponto em janeiro. Depois dessa novidade do CONIF, isso nos fortaleceu. E marcamos assembleia pro dia 16 agora, pra avaliar a questão da PEC, quando vamos avaliar se mantemos a suspensão ou voltamos à greve. A ideia é justamente pressionar, porque vem reforma da Previdência e tudo mais. Está tudo muito indefinido, imprevisível ainda, porque o governo está se mostrando imprevisível. Cada dia diz uma coisa. Vamos seguir na luta.

 

Sindsifce manifesta solidariedade
O Sindicato dos Servidores do IFCE (Sindsifce) manifesta solidariedade ao professor Sérgio Rodrigues e aos demais servidores do IFPB que foram vítima de tentativa de intimidação e cerceamento da liberdade de expressão, configurada através de reclamação judicial. O Sindsifce destaca a certeza de que os servidores serão devidamente absolvidos, diante do caráter absurdo da ação, inclusive com litigância de má-fé e com real propósito de procurar inibir os servidores e estudantes, contra o livre direito à expressão, à ocupação dos campi, à realização de greves, a uma educação consciente e cidadã.
O Sindicato destaca ainda a gravidade do episódio, que deve servir de motivo de reflexão e alerta para toda a população brasileira, sobre os tempos sombrios que estamos vivendo, com tentativa de imposição de uma agenda ultraconservadora ao País, nas mais diversas áreas. Situação exemplificada, neste caso, pela ideia do projeto “Escola sem Partido”, que constitui, na realidade, censura aos professores e não pode ser admitida pela sociedade, sob pena de a educação, a liberdade de pensamento e a democracia serem completamente inviabilizadas.